No dia 23 de julho o Rio Grande do Sul conheceu o Patrono dos Festejos Farroupilhas de 2018: Renato Borghetti, um dos principais músicos regionais do nosso estado e com carreira sólida dentro e fora do Brasil.
O nome de Borghettinho foi aprovado pela Comissão Estadual dos Festejos Farroupilhas, que é composta por representantes da Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sedactel), Secretaria de Educação (Seduc), Brigada Militar, MTG e Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs).
Mesmo com a agenda corrida, Borghetti garante que estará presente em todas as atividades relacionadas à Semana Farroupilha que ocorrerem antes de sua viagem à Europa no dia 16 de setembro, como o Acendimento da Chama, que se realizará nos dias 10 e 11 de agosto, em Iraí, na 28ª RT.
Para ele os Festejos Farroupilhas possuem um significado muito forte por causa de sua família. Seu pai foi presidente do MTG pelos anos de 1979 e 1980. Durante essa época, Borghettinho confessa que era mais atuante no Movimento e dançava na invernada do 35 CTG. Assim como o filho, Rodi também já foi Patrono dos Festejos, em 2010.
Mas mesmo não participando tanto das áreas “administrativas do MTG”, como ele nomina, é gaiteiro há mais de 40 anos e vê em sua arte a maneira de demonstrar seu amor pelo Rio Grande do Sul e pela sua origem. Leva consigo uma frase que seu pai costuma dizer sobre o movimento organizado: “O MTG é muito representativo, muito forte, mais talvez até do que as pessoas imaginem”.
No tempo que iniciou sua história dentro do CTG, mesmo antes da sua famosa gaita-ponto, Renato lembra uma cena emblemática para ele, que foi a história de um senhor que, ao chegar à rodoviária de Porto Alegre, foi espancado pelo fato de estar pilchado. Naquela época, já se passavam mais de 20 anos do Grupo dos Oito, mas ainda causava estranheza e até mesmo revolta ver pessoas em trajes típicos do sul pelas ruas.
Para se ouvir música regional também havia um horário. As rádios mantinham uma programação que disponibilizava espaço para as músicas gaúchas apenas em momentos de pouca audiência, entre 5, 6 horas da manhã.
Hoje já não é mais incomum, tanto nas cidades do interior, quanto na região metropolitana, ver bombachas e às vezes vestidos de prenda, em vias, escolas e até mesmo lojas (principalmente durante o mês de setembro). A música também se desprendeu das programações das rádios e hoje ocupa plataformas de internet, possibilitando o acesso aos seus admiradores em qualquer horário do dia.
Esses fatos são vistos pelo músico como um bom sinal dos tempos: “Se somei para algo nisso, fico muito feliz”. Mas entende que essa maior aceitação pelas pessoas se dá devido à grande movimentação de músicos, livros, festivais e MTG. Também vê a tecnologia como uma ferramenta que deve auxiliar e agregar tanto na arte como no Movimento.
Borghettinho acredita na perpetuidade do tradicionalismo por ele ser uma manifestação de orgulho da origem, e que tudo tem uma razão de ser. Em sua raiz, trabalha com a história do Rio Grande do Sul, tendo motivos e explicações de tudo que se é feito ao alcance de todos, o que facilita a comunicação e o entendimento daqueles que participam. Além disso, na sua opinião, é uma organização muito saudável, que mantém o convívio entre as gerações. Todos os membros da família podem participar juntos, independente da idade.
Essa união entre as gerações também foi um dos motivos que o incentivou a aceitar a honraria de Patrono, pois, segundo ele, poderia viver esse momento juntamente com seu pai. “Vou poder fazer boa parte dessas atividades junto com o pai. Isso me soma como uma atividade além do cultural, também é familiar.“

A Fábrica de Gaiteiros
Sua contribuição para o culto às tradições vai muito além do seu sucesso com a música. O primeiro instrumentista brasileiro a ganhar o prêmio Disco de Ouro mantém, há sete anos, o projeto Fábrica de Gaiteiros, com impacto artístico e social no Rio Grande do Sul e também Santa Catarina.
Um dos motivos que fez com que Borghetti iniciasse o projeto foi ver que com o passar do tempo cada vez menos era possível encontrar gaita-ponto nos lugares, por ser mais árduo de aprender e também por ter rareado sua fabricação. Outro fator era a dificuldade em encontrar alguém para ensinar a tocar o instrumento.
A Fábrica atende atualmente 500 crianças entre 7 e 15 anos, distribuídas em nove escolas no Rio Grande do Sul e 2 em Santa Catarina. Todo esse sucesso do projeto também é atribuído à participação das famílias, que, assim como no Movimento, apoiando as crianças e as acompanhando em seus ensinamentos, auxiliam no desenvolvimento das atividades.
Sua sede está localizada na Barra do Ribeiro, cidade que mora o gaiteiro, estando aberta de segunda a segunda, oferecendo não só as aulas de gaita, mas também oficinas de artesanato para a comunidade, visitas de psicopedagoga, teatro, tornando-se um centro cultural para o município.
Além de passar um pouco da cultura gaúcha através das aulas de gaita-ponto, a Fábrica possui uma importância social, pois muitas crianças atendidas têm uma melhora significativa em sua saúde, sociabilidade e rendimento escolar. Estar matriculado em uma escola inclusive é uma das exigências do projeto para que a criança possa participar.
As gaitas utilizadas são todas confeccionadas a partir de um tipo de eucalipto especial, que é produzido na Bahia e todos os alunos têm acesso ao instrumento de maneira gratuita, inclusive podendo levá-lo para suas casas para seu treinamento.
Borghettinho garante que para tornar-se um gaiteiro não é necessário possuir um “dom”, basta ter vontade de aprender e dedicar-se totalmente aos ensinamentos. Uma de suas maiores felicidades é poder ver jovens que iniciaram suas trajetórias do zero em seu projeto e que hoje estão viajando pelo mundo se apresentando.

Entrevista: Sandra Veroneze
Texto: Tuanny Prado

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