No dia 12 de janeiro, em São Jerônimo, chegava um grupo de oito cavaleiros vindos de Bento Gonçalves. Com eles, uma importante missão: entregar a chama crioula para o 66º Congresso Tradicionalista. No total, foram 160 quilômetros “à pata de cavalo”, saindo de Bento Gonçalves até chegar, quatro dias depois, no município famoso no Rio Grande do Sul por ser berço de Glauco Saraiva.

O tradicionalista Lino Antonio Sgarbi conduziu os trabalhos e lembra com emoção toda preparação para o ato, com destaque para a manutenção da chama, acesa, ao longo de todo ano de 2017, depois de ter sido recebida pelos cavaleiros de Uruguaiana, onde havia sido realizado o Congresso Tradicionalista anterior. A responsabilidade foi assumida pelo CTG Laço Velho, de Bento Gonçalves.

No dia 02 de fevereiro, outra importante cavalgada teve início. A Cavalgada do Mar, em sua 34ª edição, depois de seis dias, reunindo dois mil cavaleiros, percorreu 300 quilômetros. Considerada pelo livro de recordes Guiness Book como o maior evento festivo do homem a cavalo no mundo, ela partiu de Torres, passando pela costa pelas cidades de Capão da Canoa, Imbé, Tramandaí, Cidreira, Balneário Pinhal, com chegada em Palmares do Sul.

Longe do conforto, próxima dos amigos e da tradição
Sandra Abech participou da Cavalgada do Mar. Aos 51 anos, integrante do CTG Galpão da Amizade, de Eladorado do Sul, na 1ª Região Tradicionalista, Sandra cavalga desde criança, participando dos eventos desde os 17. Começou “changueando” cavalo dos conhecidos até que por volta dos 25 anos teve meu primeiro animal, uma égua tordilha “flor de especial”. Depois veio a Preta e atualmente é a baia Feiticeira que lhe acompanha nas jornadas.

A Cavalgada do Mar não é a única em seu portfólio. Participou também da Cavalgada da Serra e outras, com temáticas ecológica, religiosa, cultural. A maior foi a que trouxe a Chama Crioula, em 2015, de Colônia do Sacramento, no Uruguai, a Porto Alegre. No total, 1200 quilômetros. Até outubro de 2017 Sandra contou 16.700 quilômetros de cavalgadas, o que lhe conferiu a última comenda da Ordem dos Cavaleiros do RS, a Comenda Monarca.

O que Sandra mais aprecia nesses eventos é a parceria e a irmandade. “Somos uma grande família tradicionalista, de pessoas que amam e zelam pelos seus cavalos”, afirma. Para Sandra, a cavalgada representa uma maneira de viver, um estilo de vida que você só tem se realmente está no seu sangue. “Tem que ter coragem de enfrentar o desconhecido e também precisa ser criativo para resolver problemas que surgirão ao longo do trecho”, garante.

Segundo Sandra, muitos passaram pelo Movimento, mas nem todos aguentam o “tirão”, porque a lida campeira em muitos momentos é sofrida, deixando o conforto de casa para enfrentar as intempéries que se apresentam a cada cavalgada.

Quanto ao futuro das cavalgadas, Sandra aposta na participação efetiva dos jovens, por meio do incentivo das famílias, que são o pilar de sustentação do verdadeiro sentido do Movimento Tradicionalista Gaúcho organizado.
Assim eram as antigas tropeadas no Rio Grande do Sul.

O vice-presidente campeiro do MTG, José Araújo, concorda. Ele é um entusiasmado das cavalgadas, especialmente por conservar o clima de simplicidade e amizade tão peculiar do tradicionalismo. As cavalgadas, segundo Araújo, não fazem bem somente pela tradição, mas também à alma do cavaleiro. “É praticamente uma terapia, uma atividade saudável, sem competição, um auxiliando o outro, em reverência à relação com o cavalo, à indumentária”, afirma.

A cavalgada, segundo Araújo, é espontânea e as pessoas se envolvem de coração, porque gostam, tendo como principal incentivo o prazer de estar com os amigos, cultivando o que é autenticamente tradicional e trazendo aos dias atuais um fragmento de como eram as tropeadas antigamente.

Sob o ponto de vista do Movimento organizado, Araújo acredita nas cavalgadas como fortes atrativos para um público essencialmente urbano, que não aprecia, necessariamente, rodeio. “A cavalgada tem o cavalo, a comida campeira, a arte tradicionalista, tem a cultura regional do Rio Grande”, conclui.

Cavalgada da Costa Doce
Na primeira quinzena de fevereiro também aconteceu a 19ª Cavalgada Cultural da Costa Doce. Foram aproximadamente 250 quilômetros entre a Barra do Ribeiro e Pelotas. Para o casal Jeandro e Evelin Garcia, que participou pela primeira vez na íntegra, foi uma grande aventura, repleta de lindas paisagens, ensinamentos e grandes amizades. “O melhor dos momentos com certeza é o andar a cavalo, sentir a brisa dos campos e da lagoa, superar desafios, prosear sem pressa pelo caminho, mas descobrimos que de fato ninguém vai cavalgar para se desfazer totalmente dos confortos da cidade, vão mesmo é para subir no lombo do pingo e seguir a estrada e aceitam como podem as limitações do percurso”, conclui.

No percurso os cavaleiros almoçaram no histórico Sobrado da Sotéia e pernoitaram na Capela da Ilha da Feitoria. O caminho escolhido foi cruzando a Lagoa dos Patos, em seu trecho mais raso. Participaram em torno de 130 cavaleiros por todo o trajeto, oriundos de diversas cidades do Rio Grande do Sul e também de Santa Catarina, São Paulo e Uruguai.

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