A indumentária gaúcha é mais do que o retrato de uma época e o cultivo vivo de uma tradição. Quando prendas e peões usam a pilcha, fazem dela também expressão de seu próprio estilo e gosto pessoal, traduzidos na escolha das cores e dos tecidos. Aos olhos de quem as confeccionou, porém, bombachas, camisas e vestidos são obras de arte. Sem os profissionais da costura e sua dedicação caprichada, como seria o cultivo da tradição? Conversamos com três profissionais que se dedicam exclusivamente à indumentária gaúcha e que, com seu trabalho, garantem o sustento do lar, a satisfação de uma profissão, e ao longo dos anos se tornam testemunhas da história do tradicionalismo gaúcho.

Sonia Maristela Negri Mezzomo tem 58 anos é do município de Casca, na 7ª RT. Sonia não é tradicionalista, mas frequenta eventos promovidos pelos CTGs da região. Sua primeira experiência com a costura foi na adolescência, quando ganhou a primeira máquina no enxoval, como era de costume na época. As primeiras peças confeccionadas foram para a família. Com o passar dos anos, passou a costurar profissionalmente como funcionária de um atelier e posteriormente abriu seu próprio espaço, no qual está até hoje.

Sua rotina de trabalho chega a 10 horas por dia, contando com o auxílio da filha Débora. Sonia se orgulha de tê-la cativado para a lida, que contempla algumas peças femininas de uso cotidiano, mas, predominantemente, vestidos de prenda. Ao ano são aproximadamente 150 pilchas, num mercado que só cresce. A costureira tem consciência da importância de seu trabalho para o desenvolvimento das peças. “Percebemos, ao acompanhar as prendas que estão inseridas nesse universo, uma dedicação admirável, tornando-se pessoas íntegras e respeitadas. Essas qualidades se desenvolvem graças às vivências proporcionadas pelas tradições gaúchas, marcando positivamente suas vidas”, afirma.

O maior desafio na costura de uma pilcha, segundo Sonia, está na interpretação do croqui e o desenvolvimento do molde, seguindo medidas e proporções da cliente. A etapa mais satisfatória está no momento da entrega. “Nesse momento percebemos o olhar de alegria e satisfação da prenda ao encontrar seu traje concluído e fiel ao croqui. Nos sentimos realizadas ao ver que alcançamos o nosso objetivo e recebemos um sorriso sincero em troca”, afirma.

Ao longo dos anos, Sonia percebe mudanças no gosto das clientes. Segundo ela, vêm se diferenciando a modelagem e os acabamentos, que foram ao longo dos anos agregando beleza e delicadeza às pilchas, movimento impulsionado também pelo aumento da variedade de tecidos e aviamentos. “A maioria das clientes são pessoas bem resolvidas e determinadas. Atendemos individualmente e em grupos, cada qual com suas características particulares”.

Sonia comemora a relação com os tradicionalistas, calcada em confiança e amizade, que se consolida a cada trabalho capaz de deixá-los felizes e realizados.

Preferência por vestidos
Noelci Aloisio Scherer de Oliveira, o Tio Dica, tem 64 anos e é do município de Parobé, na 22ª Região Tradicionalista. Integrante há 17 anos do CTG Sangue Nativo, é agregado da invernada mirim durante todo esse tempo, já dançou FestXiru e foi agregado da invernada juvenil do CTG Sangue Nativo por três anos.
Como costureiro, atua há 32 anos e estampa um sorriso ao lembrar da mãe, Maria Scherer de Oliveira, que lhe ensinou todos os segredos. Quando tem bastante serviço, Tio Dica acorda às 4h30min para trabalhar e segue na lida até meia noite. Nos períodos menos intensos, o expediente se estende até as 19h30min aproximadamente. Quando a demanda é muito grande, a esposa o auxilia.
Tio Dica se dedica à costura de um modo geral, mas sua preferência é pelos vestidos de prenda. Nunca parou para contar quantos vestidos são por ano, mas garante que é pelo menos um por semana. Ele garante que a crise passa longe do segmento. “Cada dia cresce mais”, afirma o costureiro, que aposta em bom preço, qualidade dos materiais e bons acabamento.
O maior desafio, para ele, é interpretar o desenho. “Às vezes se imagina um modelo e na prática não funciona”, lamenta. Segundo ele, o momento mais feliz é ver o vestido pronto, perfeito, satisfazendo os clientes, que na sua opinião, ao longo dos anos, vêm aperfeiçoando as peças. Isso faz com que cada vestido seja um novo aprendizado. Tio Dica comemora o bom relacionamento com os tradicionalistas.

Bombachas
Landa de Oliveira da Silva é de Cruzeiro do Sul, na 24ª Região Tradicionalista. De seus 59 anos, 45 são dedicados à arte da costura. A influência pela escolha da profissão veio do pai, que era alfaiate. Corte e costura aprendeu no colégio interno – e também tapeçaria, bordado… De lá pra cá, garante, tudo mudou muito, especialmente a tecnologia, maquinário. Seu atelier fica em casa e é ponto de encontro de tradicionalistas. Landa adora costurar bombachas e um vestido de prenda, em média, precisa de dois dias para ser concluído. O marido ajuda, pregando botões, fazendo casinhas e algumas bainhas. Os filhos já não desenvolveram o mesmo gosto. Letras e artes visuais são suas áreas de atuação. Seu maior desafio é o acabamento. “Às vezes pensamos uma coisa e na prática não acontece bem assim”, afirma. Segundo Landa, ao longo dos anos se percebem mudanças na confecção de pilchas. “Antigamente se usava muito franzido, os vestidos eram armados. Muitas fitas também”. Outra mudança: antigamente a costureira tinha bastante liberdade criativa. Hoje a maioria das invernadas tem seus estilistas. Está mais fácil ser costureira hoje em dia, garante.


Entrevistas: Júlia Calvi da Silva, Caroline Reolon Scariot e Isadora Fochi. Texto: Sandra Veroneze

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