Novembro é talvez o segundo mês mais esperado pelos tradicionalistas (perdendo apenas para setembro). Foi lá no de 1986 que o Movimento Tradicionalista Gaúcho assumiu a promoção de um festival que havia surgido na década de 70, através do Mobral. Primeiramente, em parceria com a cidade de Farroupilha, denominava-se FEGART, e ocorria sempre no último final de semana de outubro.

Com o tempo o evento cresceu bastante e precisou-se de um local que comportasse toda a sua grandiosidade. Assim, em 1997, a cidade de Santa Cruz do Sul passou a ser a sede. Dois anos depois, alterou-se o nome, passando a chamar-se ENART (Encontro de Artes e Tradição Gaúcha), realizando-se sempre no mês de novembro. Até os dias atuais, várias modalidades foram adicionadas ao festival, algumas que enchem os olhos, outras que enchem os ouvidos e tem também aquelas que tocam direto na alma. Ao longo desses mais de 20 anos de história, pode-se afirmar que milhares de tradicionalistas passaram pelos pavilhões da Oktoberfest, de Santa Cruz do Sul. Alguns, após apresentarem-se na finalíssima, passaram a seguir carreira profissional na modalidade em que competiam.

Por isso, então, o Fala Tchê quis conversar com alguns finalistas dessa competição e conhecer um pouco de suas experiências.

Daiane Aguiar – 30ª RT – CTG M’Bororé – Participo do ENART desde 1999, nas modalidades Declamação e Danças Tradicionais (Força A). Comecei a declamar com 10 anos, na escola, onde tive uma professora que influenciava muito os alunos para o tradicionalismo e me incentivou a declamar nas festividades farroupilhas. Com o tempo eu já estava declamando em Rodeios Estudantis, até que cheguei a finalista do ENART, no ano de 2011, pelo CTG M’Bororé. Na modalidade de Danças Tradicionais ingressei com 12 anos (ano de 1994) no extinto DTG Piazitos da Querência. Já no ano 2000, participei da invernada Adulta do CTG Tropeiros da Amizade e em 2006 passei a fazer parte da Invernada Adulta do CTG M’Bororé, onde dancei até 2009. Cada participação tem a sua particularidade. Enfrentei algumas regionais e inter-regionais, até finalmente chegar ao tão sonhado ENART em Santa Cruz do Sul. Nas fases eliminatórias, participei desde 1999. Tanto na declamação quanto na dança, foram necessárias muita dedicação, muitas horas de ensaio e muita disciplina, para alcançar o objetivo de chegar à final, que me proporcionou uma emoção indescritível, pois havia se tornado um momento muito esperado. Chegar a uma final para mim é a sensação de dever cumprido.

Milena Borchardt da Silva – 15ª RT – CTG Pelego Branco – A declamação entrou na minha vida através de dois amigos que na época dançavam comigo na invernada juvenil do CTG Os Lanceiros, de Montenegro. Estávamos em um rodeio do município no ano de 2013 e resolvi acompanhá-los nas apresentações. Foi quando fui tomada por uma imensa vontade de, assim como eles, interpretar uma poesia. Cheguei em casa eufórica e comentando para os meus pais que eu achei todas as apresentações muito bonitas e também queria fazer aquilo. Como teste, escolhi um poema que minha mãe tinha declamado em uma Ciranda de Prendas e comecei a decorar. Quando terminei, telefonei para o meu pai e pedi que ele viesse mais cedo para casa, pois teria uma surpresa. Quando terminei de declamar, ele me disse que, se era isso que eu queria, então ele iria fazer o possível para me ajudar. Dias depois pediu pra que eu me apresentasse para um amigo dele que também declamava, para que ele dissesse o que achava, se eu levava jeito. Recebi um belo de um 4,8 e a teimosia de fazer essa nota melhorar cada vez mais. Passado um ano, por pilha do meu pai e amigos, concorri na minha primeira regional do ENART, recebendo a grata surpresa de que estaria classificada para a fase inter-regional lá na cidade de Porto Alegre. Comecei a preparação para dar o meu melhor na inter e quando chegou fiquei muito feliz que tinha classificado para o domingo da mesma (era algo que eu imaginava ser impossível) só aí, já tinha ganhado o ano. Declamei com todo a minha alma e coração e acabei sendo surpreendida com a classificação na suplência para o ENART daquele ano. No próximo ano, já com o auxílio da família Barbosa concorri em todas as fases e obtive a classificação na suplência para o ENART novamente. Já em 2016 acabei indo para o CTG Pelego Branco, de Taquari, porque tinha o grande sonho de também dançar no ENART e foi os representando que consegui as classificações para o ENART de 2016 (ainda na suplência), 2017 e agora 2018 na minha 5° final.

Todos esses cinco anos foram carregados de sentimentos, experiências e aprendizados diferentes. Todos muito especiais, seja 2014, quando uma guria de apenas 15 anos julgava ser impossível declamar no palco sagrado e quando pisou passou um filme de todos os momentos vividos até ali. Seja 2015, quando já tinha a segurança de ter participado mas ainda nutria o sentimento de ser tudo mágico. Seja 2016, quando saiu igual uma louca correndo pelo parque do ENART com a emoção de ter sido classificada para a finalíssima e ainda assim chegar no domingo, olhar o palco, aquelas pessoas as quais via apenas nos vídeos e pensar: “Poxa, é sério mesmo que eu tô aqui, que eu vou declamar no domingo do ENART ao lado de quem eu sempre admirei e ainda admiro, me belisca, porque não pode ser verdade!!!!”.

Seja 2017, quando tive que aprender na marra a conciliar ensaios do grupo de dança (sim, finalmente eu iria realizar o sonho de dançar a Força A) e de declamação. Neste ano aprendi a lidar com o psicológico, com a insegurança, com a ansiedade, mas principalmente com o sentimento de que independente do resultado o que faz valer a pena tudo isso é o amor e a dedicação que se coloca no caminho.

E seja, o agora, o 2018 onde carrego comigo um mundo de incertezas, mas também um mundo de gratidão. Gratidão por tudo que esse grandioso festival me proporcionou, pelos amigos que conquistei ao longo dos anos, pelas experiências e por cada momento mágico que eu jamais vou esquecer! Eu cresci com o ENART e tenho certeza, que o ENART também cresce a cada ano com cada um de nós!

Gabriel Augustin – 1ª RT – 35 CTG – Minha primeira participação no Enart na qual consegui me consagrar finalista foi em 2012, nas modalidades de Gaita Ponto 8 Baixos e acima de Oito Baixos, Gaita Piano, Violão e Viola. A música entrou desde cedo na minha vida, não só no mundo tradicionalista como fora dele também e através disso todos os instrumentos que concorri no Enart entraram de forma muito marcante. Creio que cada palco específico de regionais, inter-regionais e mesmo na final são emoções diferentes, até perceber o que realmente estar naquele palco significa. Preparação para final sempre contava com uma pressão de dar o melhor sem maiores pretensões de premiação, qualquer coisa que viesse seria consequência do trabalho feito anteriormente. A emoção de chegar em Santa Cruz é simplesmente uma felicidade extrema, pois desde a primeira fase só o desejo de chegar lá na final parece ser algo distante. Buenas, até hoje participei nos anos de 2012, 2013 e 2014, quando tive a grande felicidade de ser Bicampeão na modalidade Viola em 2012/2013, 2° lugar em Gaita ponto em 2013 e por último, em 2014, quando conquistei o 3° lugar nesta mesma modalidade.

Éridio Silveira – 4ª RT – DTG Clube Juventude – Participei por vários anos do ENART, pelas Danças Tradicionais (Força A), mas com certeza o especial foi 2009. Para chegar lá, passei por uma evolução muito grande na minha vida, pois participei de todas as categorias anteriores antes de chegar à Adulta.
Para nos prepararmos para o festival, foi tranquilo. Precisamos, claro, de muita dedicação, horas de ensaio, retiros com pessoas, professores e familiares.
Foi muito surpreendente estar naquele palco com os integrantes do grupo, com os professores incríveis (Cláudio Mello, Beloni Bastos). Na hora, senti os 22 minutos mais demorados da minha vida. Foi incrível! Inexplicável! Um momento único que comprova o quanto foi árduo chegar à terra do ENART, Santa Cruz do Sul.

Fernando Aguiar – 12ª RT – CTG Tropeiros da Amizade – De 2002 a 2014 participei de todas as edições, tanto individual quanto em grupo, nas modalidades conjunto instrumental, conjunto vocal, gaita, violino, declamação… A tradição entrou na minha vida aos seis anos de idade, quando declamei na escola um poema de Glauco Saraiva dado pela professora. Participei de um rodeio estudantil e fiquei em 2º lugar, então comecei a me interessar pela arte. Declamei a vida toda, mas não foi pela declamação que pisei no Enart pela primeira vez, e sim pela gaita. Com 14 anos comecei a aprender o instrumento, e também a tocar para um grupo de danças. O Sr Volmar Brauner me inscreveu na fase regional, por conta dele, e inscreveu o conjunto instrumental do grupo também. A partir daí estudamos o regulamento e nos viramos para cumprir o que havia lá. Isso foi em 2002. Foi assim que fiquei mais interessado pela música. Guardei os poemas e fui para as partituras. Eu e meus grandes amigos, Jean Prudêncio e Filipe Martins, fomos a primeira formação do conjunto instrumental “Os Tropeiros”.

Em 2006 tirei os poemas do armário e fui para minha primeira inter-regional de declamação, passei para o domingo e me classifiquei para Santa Cruz. Fiquei realizado por estar lá, sendo que foi pela poesia que entrei no Movimento. Uma alegria sem igual. Como Conjunto Instrumental, ensaiávamos uma vez por semana, até que um dia chegou nossa vez e conquistamos o 3º lugar em 2005. No ano seguinte fomos campeões. Se existe receita não sei, mas descobrimos o caminho: ensaio! Porém tinha um fator muito importante: Observar o que dava certo, tanto que repetimos alguns gêneros por um tempo, pois percebemos que era onde nos dávamos melhor, agradávamos com nosso estilo de tocar e até que em 2014 veio o tri campeonato, 3 vezes em segundo e 3 vezes em terceiro.

Nesse meio do caminho surgiu o Conjunto Vocal, que também passou pelas mesmas dificuldades do conjunto instrumental: demorou para perceber a fórmula. Até que nos demos conta de que conjunto vocal é literalmente um conjunto de vozes, e não “um cantor” com pessoas fazendo vocal para ela. Quando descobrimos isso ganhamos por três anos seguidos. Somos o único tri campeão consecutivo e o único tetra campeão na categoria até os dias de hoje. Quando ganhamos pela primeira vez o terceiro lugar estávamos um em cada canto do ginásio, jamais esperávamos ganhar. Saí correndo, peguei o troféu e na euforia encontrei meus colegas (que eram eles, aqueles mesmos de 2002). Essa cena, ao encontra-los, tenho viva até hoje na minha memória. Foi fantástico! E por seguirmos juntos, ganharmos os outros títulos juntos, e vencer já não era a diferença. O legal era ouvir as pessoas falando “chegaram os guris de Sapucaia”, e nós nos sentíamos em casa naquele palco.

Por Tuanny Prado

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