Os discursos do presidente do MTG, Nairo Callegaro, chamaram atenção no Entrevero de Peões, realizado em abril, e na Ciranda de Prendas, em maio, pelo seu tom contundente. Considerando que muito se fala pelo que é dito e mais ainda pelas entrelinhas, o Eco da Tradição resolveu aprofundar algumas afirmativas dos discursos. Confira a entrevista:

Eco da Tradição: Em seus discursos são frequentes as referências ao tradicionalismo de antigamente. É uma crítica a como é feito hoje?
Nairo Callegaro: Todo meu esforço é no sentido de bebermos da fonte. De buscarmos no passado a referência de como fazer hoje. Nem sempre sou compreendido, mas acredito que a grande maioria dos tradicionalistas se apercebe deste momento. Precisamos resgatar alguns valores, como a simplicidade, a espontaneidade, o voluntariado, e nossa vocação para o debate, sem medo, sem mordaças, defendendo ideias e ideais.

Em Campo Bom o senhor agradeceu ao prefeito da cidade pelo entendimento do que é o tradicionalismo e seu papel na sociedade. É um marco?
Felizmente estamos conseguindo ampliar a conversa com a sociedade como um todo. Sempre que realizamos eventos em parceria temos essa oportunidade de qualificar o diálogo com outras instituições e formadores de opinião. Alguns setores da imprensa também estão mais receptivos e atentos às pautas do MTG. Estamos avançando.

Ao final de uma gestão estadual é natural fazermos um balanço. O trabalho das prendas mereceu muitos elogios seus.
Sem dúvida. Descobri em cada uma delas uma joia rara. Elas marcaram de forma especial a minha vida. Disse e repito: poderia percorrer todo o dicionário buscando os melhores vocábulos para qualificar o trabalho desenvolvido e não encontraria um que pudesse expressar a grandeza do que foi construído nesta gestão.

Seus discursos, tanto no Entrevero como na Ciranda, chamam atenção para a importância do enfrentamento. Não é paradoxal, sendo uma entidade que busca relações amistosas?
Precisamos saber diferenciar. O enfrentamento que devemos buscar é no campo das ideias. Jamais poderemos viver situações onde as pessoas tenham medo de dizer o que pensam e de apresentar seus argumentos. Devemos nos esforçar sempre para criar e ampliar os espaços de debate. É importante que cada um tenha suas convicções, sustente-as, e que, sim, vá para o enfrentamento quando é hora de defendê-las. Sempre no fórum adequado, com a postura adequada. E que nos momentos seguintes possam todos se abraçar, como amigos engajados na mesma causa. Ninguém deve perder amizade por pensar e inclusive votar diferente, por exemplo, como é o caso dos congressos.

Um dos aspectos intrigantes dos seus discursos diz respeito ao conselho de que os jovens jamais devem deixar ninguém tentar desconstruir o que fizeram até então. A que, exatamente, o senhor se refere?
Um ditado popular diz que para cada pessoa disposta a fazer algo existem várias para desqualificar e criticar. Vemos isso também no tradicionalismo, em alguma medida. Os jovens às vezes são mais vulneráveis a críticas, estão ainda definindo sua personalidade, e é importante que saibam distinguir as críticas construtivas das maldosas. Digo sempre para que se orgulhem de cada passo que deram, que não tenham vergonha de revisitar seus conceitos, mas que façam tudo com convicção, porque acreditam. São os jovens que constróem o presente e o futuro do Movimento. Queremos mentes livres e pensantes e tradicionalistas com coragem, sem vaidades, sem disputa de ego e muito menos de poder. Dispostos a construir pelo coletivo.

“Fui sempre aquilo que sou, sou sempre aquilo que fui, / Porque a vida não dilui o que a mãe terra gerou… / Sou o brasedo que ficou e aceso permaneceu, / Sou o gaúcho que cresceu junto aos fortins de combate / E já estava tomando mate quando a pátria amanheceu!!!”. O que exatamente o senhor que dizer com os versos de Jaime Caetano Braun?
A mensagem é bastante clara: sejam autênticos, não sejam levianos. Não sejam duas pessoas; não tenham duas opiniões, ou duas caras, ou uma versão para cada ocasião. Tenham convicções e lutem por elas.

O senhor costuma dizer que faria tudo de novo.
Sim. Às vezes, com o passar do tempo, cada um, em sua consciência, é convidado pelos eventos da vida a se questionar, a revisar seus conceitos, sua forma de pensar e agir. Refletir em como fazer as coisas, com quais fundamentos, em quais ocasiões, é uma prática que procuro cultivar. E cada vez que me coloco em xeque sobre o que estou fazendo, e faço isso com frequência, porque não me entendo o dono da verdade, tenho a grata satisfação de, sim, renovar a minha consciência de que estamos no caminho que me parece o correto.

No Entrevero o senhor falou sobre erros.
Vez por outra sou cobrado por falhas cometidas pelas pessoas jovens às quais oportunizei que assumissem cargos e responsabilidades no MTG. É importante termos presente que todos somos passíveis de erros. Os antigos muitas vezes erram por excesso de experiência; os novos pela falta dela. Por isso a importância do tema anual. Vamos unir essas gerações, para mútua inspiração.

O senhor também disse que a convivência, tanto com a gestão de prendas como de peões, foi inspiradora.
Sem dúvida. Aprendo todo dia com cada um deles. Às vezes me pego observando as particularidades da personalidade de cada um, o jeito que encaram a vida, as soluções que encontram para velhos problemas. É muito inspirador. Por isso sempre que possível procuro estimulá-los em suas melhores características. O futuro do Movimento depende dos jovens, que também estão fazendo o presente. Quanto mais dispostos, empoderados, conscientes e conectados com o verdadeiro tradicionalismo eles estiverem, tanto melhor para todos. É assim que as coisas devem ser – para todos, sempre pensando no bem coletivo.

Entrevista: Sandra Veroneze | Foto: Mauro Heinrich

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