Dando continuidade ao especial sobre a Carta de Princípios, o Eco da Tradição de março conversou com tradicionalistas a respeito de seus itens 5 e 6.
O documento máximo do tradicionalismo, aprovado no 8º Congresso Tradicionalista, na cidade de Taquara, e de autoria de Glaucus Saraiva, apresenta nesses artigos integrantes dos aspectos filosóficos e culturais.

Artigo V – Criar barreiras aos fatores e ideias que nos vêm pelos veículos normais de propaganda e que sejam diametralmente opostos ou antagônicos aos costumes e pendores naturais do nosso povo.

É o primeiro dos aspectos filosóficos da Carta de Princípios. Segundo o livro 1º Fórum Tradicionalista, esse grupo é caracterizado por ser dotado de princípios e causas.
Para Júlio Bartzen de Araújo, Capataz Cultural do CTG O Fogão Gaúcho, justamente local onde de aprovação da Carta, este item pede para que seja criado um filtro com relação a tudo aquilo que se é pregado pelos meios de comunicação comuns, e que acaba indo contra os nossos costumes e valores.

Na opinião de Gabriela Sarturi Rigão, 1ª Prenda da 13ª RT, esse item evidencia a preservação dos nossos costumes e nossos pendores frente às diversas influências culturais, uma vez que estamos imersos em um mundo globalizado e tecnológico. “Precisamos lembrar dos primórdios do tradicionalismo, a preocupação do grupo de jovens percursores com a cultura norte-americana que se difundia em veículos de propaganda: na época eles identificaram um risco de esses costumes modernos serem tomados como ideais, levando as tradições gaúchas ao menosprezo e esquecimento.”

Luana Gonçalves, 1ª Prenda da 10ª RT, vê nesse artigo a solicitação pela preservação da nossa cultura. “Estamos sempre em contato com os veículos de comunicação, temos o poder de nos contrapor aos fenômenos opostos ao tradicionalismo e defender os objetivos da Carta. Sua importância retrata a garra do povo gaúcho em resguardar seu legado”, afirma.

Já Eduarda Amaral Ehlert, 3ª Prenda e também Diretora Cultural da 3ª RT, o assunto tratado é de relevante importância e de grande reflexão para os dias atuais. “Acredito que os tradicionalistas em geral buscam colocar em prática este item, porém, em uma sociedade altamente informatizada, é complexo ‘criar barreira’, visto que os meios de comunicação estão com seus acessos cada vez mais facilitados.”

Eduarda aponta que essa facilidade ao acesso apresenta dois caminhos: “o uso dos meios de comunicação para integrar o tradicionalismo com a sociedade onde está inserido e o seu uso para a depreciação da cultura e seus variados aspectos”. Segundo ela, não é aconselhável desvalorizar esses meios, tendo em vista que eles possuem papel fundamental na divulgação do tradicionalismo, mas reafirma que os tradicionalistas devem sim opor-se a tudo o que não condiz com o que cultuamos.

Para Gabriela, os dias de hoje proporcionam que tenhamos mais contato com a diversidade cultural, e isso deve ser visto de forma positiva, pois pode-se assim conhecer as expressões artísticas e culturais do resto do Brasil, inclusive para igualmente respeitá-las. “Nós, tradicionalistas, estamos em um movimento que visa a preservação de costumes e pendores, evitar que fatores opostos a eles sejam agregados aos nossos meios de cultura faz parte do nosso dever, mas não conseguimos sempre. Muitas vezes a influência externa é tão significativa que é preciso criar espaços de debate para esclarecer, ou até mesmo regras para impedir que um fator proveniente a outra cultura seja erroneamente incorporado como natural dentro dos Centros de Tradições Gaúchas.”

Segundo Luana, essa facilidade na circulação de informação deve ser utilizada a favor do Movimento, com o uso dos veículos de comunicação por pessoas diretamente ligadas ao tradicionalismo, auxiliando na divulgação da nossa cultura para os que desconhecem sua essência.

Também aponta que projetos desenvolvidos por prendas e peões auxiliam na divulgação da cultura, não de forma tecnológica, mas aqui empregando o sistema de boca a boca. “Porém, se a Prenda não possuir conhecimento elaborado sobre nossos costumes, acaba criando uma propaganda oposta aos pendores naturais de nosso povo. Cabe ao jovem tradicionalista ampliar a rede de comunicação para sanar dúvidas, propor debates, criar ideias novas e compatíveis com nossa cultura.”

Gabriela vê nos departamentos culturais o engajamento desse item, ao propagarem conhecimentos e barrarem as influências. “Considero que o conhecimento, o diálogo, o bom senso são as mais simples e mais importantes formas de fazer-se cumprir o artigo V. Mas, por vezes, vemos nas entidades tradicionalistas a presença de elementos opostos aos tradicionais. Muito se vê, por exemplo, os jantares com cardápios que trazem como carro carro-chefe o ‘strogonoff’, encontros culturais com ‘hot-dog’, festividades de invernadas com a temática de ‘halloween’ no próprio CTG.”

Para a prenda, deve-se retomar a consciência de viver no tradicionalismo a cultura gaúcha em seus diversos elementos naturais, buscando a preservação da culinária, música, folguedos que são formadores do Rio Grande do Sul. “Para tal, propor espaços de diálogo sobre os elementos que estão ultrapassando as barreiras, buscando alternativas autênticas para preencher as lacunas que foram ocupadas pelas influências externas, estar presente nas diversas mídias para difundir e fortalecer os costumes gaúchos, promovendo reflexões acerca de nossas atitudes tradicionalistas.”
Luana fala que por ostentar uma faixa e também por carregar o tradicionalismo no coração, procura sempre priorizar a valorização da história do Rio Grande do Sul, ao fomentar a participação dos jovens em sua região. “O intuito é de plantar ou até mesmo cultivar a semente de nossas origens, firmar as raízes que ainda sustentam nossa identidade cultural e obter maior número de participantes envolvidos na preservação de nosso legado.”

Os jovens poderiam sim ser um meio de alcançar o fim do artigo, porém Eduarda destaca que ainda é comum vermos grandes movimentações de tradicionalistas quando circulam notícias que desacreditam o tradicionalismo ou que trazem grandes inovações que, segundo ela, fogem do natural. “Mas não há como proibir esse tipo de circulação. Com a tecnologia, cada vez fica mais difícil impedir algo, por isso fica a reflexão: como cria-se barreiras na sociedade atual?”

Júlio talvez tenha a resposta para essa pergunta. “Sentarmos com nossos amigos dentro de um galpão, para tomar nosso chimarrão. A melhor rede social ainda é a roda de mate. Criamos barreiras automaticamente ao cultuar o tradicionalismo através de eventos presenciais de recreação, rodas de conversas etc.”. Afirma que os meios de comunicação se utilizam dos meios globais de massa, e que os tradicionalistas conseguem propagar a cultura através do convívio sadio entre diversas gerações e famílias existentes nas entidades, o que facilita a formação e também transmissão de valores entre as gerações. “Mas esse método só continuará ‘combatendo’ os fatores externos se prosseguirmos conscientizando os tradicionalistas de que é necessário cuidar do bem estar coletivo da sociedade, em oposição ao individualismo pregado pela mídia”, pontua.

Texto: Tuanny Prado | Fotos: Acervo particular

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