O tradicionalismo gaúcho ganhou o mundo alicerçado no argumento de que se trata de um ambiente saudável, propício para relacionamentos respeitosos. Ao mesmo tempo, no quadro de palestras do Cfor Básico – Curso de Formação Tradicionalista que o Movimento Tradicionalista Gaúcho oferece, existe o tema Gestão de Pessoas: liderança, relacionamento interpessoal e gerenciamento de conflitos. Para entender um pouco mais essa questão, que aparentemente é paradoxal, e tantas outras questões que envolvem o relacionamento interpessoal no ambiente das entidades, conversamos com o professor voluntário do Departamento de Formação Tradicionalista, coach Vitor Darlei de Quadros.

Qual a importância de tratar sobre gestão de pessoas no universo tradicionalista?
Independente do universo, a gestão de pessoas é o grande segredo para o sucesso, tanto familiar como empresarial ou social. No universo tradicionalista não é diferente. Um Centro de Tradições Gaúchas tem uma função social muito importante, enquanto local de reunião de (muitas) pessoas com a finalidade de manter acesas as raízes de sua origem – origem esta preservada de geração em geração.

O ambiente tradicionalista, de modo geral, é favorável para a boa convivência?
O ambiente tradicionalista não só é favorável para a boa convivência como é um dos grandes promotores dessa boa convivência. Diria mais. Além de promotores, as pessoas envolvidas são totalmente comprometidas com a manutenção deste ambiente de salutar convivência, onde regras, normas e práticas de boa conduta familiar e social são amplamente difundidas e vivenciadas.

Quais os principais tópicos abordados nas suas palestras?
Os temas de minhas palestras para o MTG, que me foram propostas, foram “Liderança, Relacionamento Interpessoal e Gerenciamento de Conflitos”. Considero muito apropriados esses temas, pois entendo que, para se conviver dentro de uma entidade tradicionalista, esta precisa ser conduzida por alguém ou por um grupo de pessoas que exerçam uma certa liderança sobre os demais. Deixo claro que o líder é um servidor. Alguém que é referência, exemplo e, acima de tudo, não abre mão de um relacionamento de confiança, ingrediente essencial no seu exercício.
Com relação ao Relacionamento Interpessoal, deixamos claro sua importância, pois um ambiente saudável, de boa convivência, passa, primeiro pelo autoconhecimento e, posteriormente, pelo conhecimento das habilidades, capacidades e características das demais pessoas. Por que isto é importante? Para o pleno exercício da liderança, que passa pela empatia e pela confiança mútua. O grande desafio dos líderes é identificar os dons de seus liderados, com a finalidade de explorar sua máxima capacidade, fazendo-o desenvolver suas atividades com realização e alegria.
No que se refere a gerenciamento de conflitos, deixamos claro, de início, que eles sempre existirão, em qualquer sociedade. A questão está em como equacioná-los. Para isso é importante conhecer-se e conhecer os liderados. Nas palestras, é debatido acerca da importância da gestão. Entende-se que os líderes precisam identificar os pontos de conflito e colocar, acima de tudo, os objetivos e interesses da entidade.

Quais as principais características de um verdadeiro líder tradicionalista?
Descrevo, em poucas palavras, um verdadeiro líder tradicionalista, alguém que é referência para os demais. Referência em relacionamento pessoal e familiar, respeito às pessoas, humildade, que ouve mais do que impõe suas ideias, e que, acima de tudo, preserva a todo custo as raízes da tradição Rio-grandense, respeitando a vontade da maioria. Um líder tradicionalista, no exercício da função, precisa ser aquele que serve, não se importa em ser servido, dá plenas condições para que cada um, em sua esfera de atribuições, desenvolva da melhor maneira possível sua missão. Além disso, um líder tradicionalista precisa desprover-se de vaidade, ou seja, os “louros” das conquistas são de todos. Um líder jamais de expressa como “eu”, mas como “nós”, dando a entender que todos tem a mesma importância na sociedade.

Como você definiria um bom relacionamento interpessoal?
Definiria como o grande desafio do século. Ter um bom relacionamento entre pessoas envolvidas, em qualquer atividade coletiva, seja profissional ou social/cultural, é e sempre será desafiador. Quanto maior o universo, mais difícil o bom relacionamento. Por isso que considero o autoconhecimento indispensável para que as pessoas procurem identificar em si, primeiro, as deficiências ou virtudes, para corrigi-las ou aprimorá-las primeiro, antes de exigir dos demais valores como ética, respeito, humildade. Desta forma, entendo que um bom relacionamento passa pela identificação dos valores e crenças pessoais, para poder entender que as demais pessoas também possuem valores e crenças próprias, que jamais serão idênticas às suas e, mesmo assim, é possível relacionar-se e conviver de forma harmoniosa.

No ambiente tradicionalista, quais são as posturas que atrapalham o bom relacionamento?
Podem ser muitas, mas a principal delas, acredito, talvez seja a vaidade. Pessoas que num ambiente coletivo, social, em que raízes tradicionalistas são cultivadas, deixar-se conduzir apenas por suas vaidades, com certeza irá atrapalhar o bom relacionamento. Por isso a importância do líder. Conhecer a fundo as pessoas, trazendo-as para a realidade do dia-a-dia da entidade, com foco no objetivo coletivo estabelecido. Vontades pessoais, com certeza, atrapalham todo bom relacionamento. A entidade e o tradicionalismo acima de tudo.

O que é um conflito e qual o passo a passo para resolvê-lo?
Definiria conflito, num meio social/cultural, como divergência de ideias e vontades. Sempre haverá. Um conflito pode ter muitas origens. E é importante, num primeiro passo, que se conheça essa origem. O líder do grupo, que conhece as pessoas, pode ser capaz de identificar. Creio que não haja uma “receita de bolo” capaz de solucionar todos os conflitos. Nas minhas palestras, friso que a solução passa por uma criteriosa reunião de patronagem, em que todas as variáveis são expostas, e que o bom senso precisa sempre prevalecer. Creio também que, por se tratar de pessoas com valores e crenças galgados nas raízes do tradicionalismo, onde a confiança, a lealdade, a honestidade e o respeito são bases para todo relacionamento, quando consideradas, podem levar ao consenso. Ainda trago ao debate, nas palestras, a importância do perdão. É humanamente difícil reconhecer-se responsável pela geração de conflitos e por isso, também, se torna difícil pedir perdão. Perdoar também não é tarefa fácil. Mas trazemos à consciência o sentimento de alívio e bem-estar, tanto à pessoa que é perdoada, como a que perdoa. Por fim, com a finalidade de enriquecer a ideia de que é impossível não haver conflitos, relaciono a prática de alguns valores e crenças indispensáveis nos relacionamentos interpessoais. São eles: empatia, honestidade, respeito, vontade, dedicação, consideração, auto-responsabilidade, acolhimento, amor, aceitação, união, trabalho, amizade, simpatia, sinceridade, lealdade, doação, empenho, fidelidade, compreensão, comprometimento, paciência, assessoramento, entre outros, tudo com a chancela do indispensável, que é a confiança mútua.

Entrevista: Sandra Veroneze

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