Cinema de bombacha: cultura e tradição gaúchas combinam com a telona?

Guilherme Sumam é o idealizador e diretor de O Bochincho, filme que levou para as telas do cinema o poema de Jaime Caetano Braun. Nesta entrevista, ele fala sobre os desafios de se fazer cinema no Rio Grande do Sul e as particularidades da estética gaúcha, bem como o legado deixado por Teixeirinha, Zé Mendes a Tabajara Ruas e Henrique de Freitas Lima, sem esconder a admiração que tem pela minissérie A Casa das Sete Mulheres.

 

Cultura gaúcha e cinema combinam?
Certamente! Há muito material incrível sobre o regional do sul nas telas, de Teixeirinha, Zé Mendes a Tabajara Ruas e Henrique de Freitas Lima. Muitas formas, linguagens e conceitos diferentes que se propuseram em colocar o Rio Grande na cena. O Nordeste é muito bem representado no audiovisual, o Sudeste também. O Sul, porém, fica mais afastado, seja por razão geográfica, política ou linguística e cultural. Contudo, tem muito filme honesto, de qualidade e importante para a difusão desse Brasil ao sul do sul.

Qual a fórmula do sucesso de obras como O Bochincho e A Casa das Sete Mulheres?
Então, fico feliz em ter nosso filme citado ao lado daquela que julgo a maior minissérie da televisão brasileira. O Bochincho trilhou até aqui um caminho de sucesso e realizações em festivais e exibições de luxo. Isso é reflexo de um trabalho com grandes talentos do audiovisual, mas que certamente bebe em referências como a série do Monjardim. O texto da Leticia Wierzchowski permitiu a abordagem épica que cativou o Brasil. Um Rio Grande homérico e apaixonante. Uma grande realização. O Bochincho é, por intenção de um projeto amplo e ambicioso, a adaptação de um cancioneiro vívido, tradicional, mas pouco visto para além da própria redoma. A obra de Jayme Caetano Braun é poeticamente incrível, poderosamente imagética. A homenagem, além de necessária, resgata em tom de faroeste um sul com sotaque, mas revisionado e propício ao consumo em outras linguagens (como a do cinema) para novas gerações terem acesso ao nosso repertório cultural.

Que particularidades você percebe no desenvolvimento de um trabalho que tem a cultura gaúcha como pano de fundo?
Primeiramente, me chama atenção o esforço em, muitas vezes, reproduzir a questão identitária muitas vezes pela exposição do mito (o centauro das coxilhas), dando ao gaúcho o suporte épico – como aspira o Bochincho, só que em cima de uma figura e discursos já mais desconstruídos dessa necessidade osca de afirmar virilidade e macheza para presumir-se gaúcho. Outro fator é o trabalho sempre muito preocupado com o didatismo histórico. Isso, às vezes, pode até prejudicar o ritmo de uma trama por preocupação pedagógica expositiva e pouco há de espaço, às vezes, para o subjetivo.

Você vê potencial no cinema como esteira para promover a cultura e o turismo gaúchos?
Com certeza, sim. Há muito o que se contar, resgatar, propor e realizar por aqui. Sem ranço, sem autoexílio cultural, com isolamento mercadológico à parte. O Sul é poderoso como o Norte, Nordeste etc. Pode proporcionar grandes experiências e atrair públicos. Porém, precisa abrir mão do provincianismo, ousando mais, criando sem rezar missa aos coronéis cetegianos e afins.

Quais as dificuldades de se fazer cinema no Rio Grande do Sul?
Olha, estou começando a trilhar esse meio, apesar de já certa trajetória artística em outros ramos – e sempre com conexões diretas com o regional. Vejo muita dificuldade na busca de investimento, recursos, apesar de muita guerrilha apoiada por realizadores e colaboradores, há entraves financeiros. Também percebo já de pronto uma resistência ao conteúdo regional (entre os próprios realizadores do RS), bem como com novatos. Isso cria uma bolha pouco favorável às trocas e aprendizagens, mas sempre, claro, ressalvando boas exceções (muitas destas, por exemplo, me permitem sonhar na área, por exemplo, e, por isso, a estes sou grato).

Como foi produzir O Bochincho?
O Bochincho nasceu de uma extensa pesquisa e vontade de realizar encabeçada por mim e pelo coroteirista, também pesquisador e compositor regional, o jornalista e professor Thiago Suman. Com a anuência de Aurora Braun, viúva de Jayme Caetano Braun, buscamos parceiros que acreditassem na ideia. Pedro Gomes e Juliana Brum de início fizeram toda diferença na produção, somando-se ao baita trabalho de uma equipe fundamental de arte e técnica, como Juliano Dutra, Carol Scortegana, Jhonny Left, Pauli Becker, Duca Duarte, e muitos outros. Alegria são várias: a estreia no festival de Cinema de Gramado, as várias indicações e premiações, inclusive na Europa (o filme representou o Brasil na Espanha, também, ao lado de Bacurau), esteve listado em grandes portais de cinema, foi exibido e está negociado com grandes canais, mas sobretudo o fato de me aproximar de pessoas boas, talentosas que passaram a crer no diferencial de nossas artes. Dificuldades: financeiras, mas o apoio de Lavras do Sul, na pessoa do prefeito Sávio Prestes e muitos parceiros, foi essencial. Curiosidades: tivemos a participação direta ou indireta de grandes ícones da música regional, como Luiz Marenco, Cristiano Quevedo, Elton Saldanha, Enio Medeiros, Ricardo Comasseto e outros. Também, o fato de contar com objetos de cena e peças de roupa de um amigo pensado para o filme, mas que partiu antes da hora, Leonardo Machado. Legado: pretensiosamente, penso que é a ampliação e a afirmação desse cinema de bombacha, essa renovação do regional em um novo pacto com o público por aspirar ao conteúdo daqui, mas que conversa com o universal.

Entrevista para Sandra Veroneze

Matéria integrante do Eco da Tradição 224