“O pampa gaúcho se tornou sinônimo de Rio Grande do Sul no imaginário popular”

Mauro Vila Real é um dos principais nomes das artes plásticas gaúchas. Com diversas exposições internacionais, recentemente tem estreitado laços com a aquilo que se pode chamar de “estética gaudéria”. A identidade visual dos Festejos Farroupilhas de 2020 foi desenvolvida por ele, bem como da 42ª edição da Califórnia da Canção. Além disso, integra o projeto Pelos Caminhos da História. Temas como cavalo e campo, com alguma regularidade, têm aparecido em suas obras. Nesta entrevista, ele fala sobre seu trabalho e inspiração.

Artes plásticas e cultura/tradição gaúchas combinam?
Mais que combinam. São necessárias uma à outra. Percebo que hoje a cultura gaúcha está bastante focada na música, na dança e na culinária, havendo um bom espaço para as artes plásticas e também a escultura, entre outras manifestações artísticas, crescerem. A pintura, por sua própria definição, conceito e prática, consegue se unir a outras vertentes e representá-las, divulgando-as. É uma excelente divulgadora de nossa cultura.

Pode-se falar numa “estética gaudéria”?
Tenho pensado sobre isso. Quando falamos de uma estética gaudéria, no nosso imaginário se ativam imagens e representações do campo. A região sul e fronteira do Rio Grande do Sul estão muito bem representados em nossas obras. Isso é facilmente perceptível quando conversamos com pessoas de fora do Estado. O nosso pampa é praticamente sinônimo de Rio Grande do Sul para muitos. Porém, outras regiões do Estado também podem ser objeto do olhar dos artistas. A Serra é muito bonita, o Noroeste também e inclusive o litoral. Outro detalhe importante de ser analisado é que o Rio Grande do Sul, apesar de ter uma enorme extensão de terras rural, conta com uma população essencialmente urbana. Acredito que as artes podem constituir esse elo entre o urbano e o rural, contribuindo pra reduzir as distâncias e reforçando nossa diversidade cultural. Inclusive na comparação com o gaúcho uruguaio e o gaúcho argentino, temos nossas particularidades.

Você é otimista com relação à arte regional gaúcha, especificamente artes plásticas?
Sou naturalmente otimista. É o otimismo que nos mantém em movimento. Confesso que meu lado artista briga muito com o pragmático. O artista quer sonhar e o pragmático puxa os pés até o chão. Estamos vivendo um momento muito peculiar. Essa pandemia de alguma forma me conectou novamente ao Rio Grande do Sul. Eu estava produzindo muito para fora, ficava pouco aqui. Acabei descobrindo novas facetas do meu eu artista. O gaúcho de modo geral se voltou mais para suas próprias coisas. Vejo isso como positivo.

De que forma podemos ter mais pintores dedicados à cultura gaúcha?
Eu acredito que um maior interesse de artistas plásticos pela cultura gaúcha passa pela vontade do poder público em fomentar a divulgação dos nossos artistas, para fora do Rio Grande do Sul, como parte do nosso patrimônio cultural. Cultura e turismo estão intrinsicamente ligados. Nossas artes podem mostrar o que temos e despertar o desejo de conhecer nossos lugares. Além disso, penso que ações assim estimulariam o próprio gaúcho a lançar novos olhares sobre o Rio Grande do Sul. Como o gaúcho é visto pelo próprio gaúcho? Fora não nos valorizarão, se internamente não nos valorizarmos. E se houver essa venda da nossa cultura enquanto algo intrínseco, vai ser um ponto de atração muito grande pra quem está fora e um motivador para que o artista local produza mais e produza melhor.

De todo seu “catálogo gaudério” que obra você mais gosta?
Eu tenho um carinho muito especial por uma obra recente. Minha filha Clarinha estava comigo e pintamos juntos uma cabeça de cavalo, ao vivo. Foi um momento muito especial dividir o palco com ela.

Entrevista para Sandra Veroneze

Matéria integrante do jornal Eco da Tradição 224