O segredo para compor uma autêntica música gaúcha, segundo artistas renomados

 

O tradicionalismo gaúcho é historicamente marcado por discussões acerca do que é e do que não é uma autêntica música gaúcha. Para ampliar e pontuar o debate, o Eco da Tradição perguntou a renomados artistas quais são os elementos indispensáveis para uma música ser considerada raiz. Confira a opinião de Analise Severo, Lincon Ramos, Nicole Carrion, Capitão Faustino e Leonel Gomes.

 

Capitão Faustino – Penso que três elementos são muito importantes. O primeiro deles é a relação do artista com o tema cantado. Existe valor quando é algo do conhecimento do músico, de sua vivência, sua experiência. Isso dá uma base de verdade. Nas minhas composições, por exemplo, procuro valorizar o que vivi com meu pai, com meu avô. Outro elemento muito importante, a meu ver, se refere aos instrumentos. Penso que deve se buscar um equilíbrio entre o que é mais simples e a sofisticação de arranjos. Muitas vezes, um arranjo simples, mas feito com capricho, reflete melhor o que vai no coração do artista. Defendo a ideia de poucos instrumentos e bem tocados, sem muita firula. O terceiro elemento é a letra da canção. Precisa ser direta, valorizando a região de onde o artista vem. É bonito mostrar seu sotaque, sua linguagem. Isso tudo, na minha opinião, dá um lastro de autenticidade pra música gaúcha.

Nicole Carrion – Na minha opinião, para ser autenticamente gaúcha, uma música deve estar identificada com nossa cultura regional, com os nossos costumes. Um fator importante para isso é a presença de símbolos de nosso cancioneiro, como por exemplo instrumentos e arranjos típicos. Também penso que ela deve ser acessível a todos os tipos de público. Aqui me refiro às letras que abordam as lidas de campo. Nem todos conhecem os termos e isso pode ser um fator de distanciamento. Também penso que a música deve passar uma mensagem e acompanhar o tempo que vivemos. O que foi feito no passado não se muda mais e integra a história, cultura e tradição. Porém, existem certas coisas que não cabem mais, como letras que não falam tão bem da mulher ou se referem a ela de forma pejorativa. Podemos repensar nossa música, para que seja atual, acessível e reflexo de nossa identidade, trazendo cultura e tradição para todos.

Lincon Ramos – Baseio meu conceito nos mais de 30 anos de trabalho profissional na música gaúcha, como cantor, músico e também produtor. Na minha opinião, tem um tripé que é fundamental e determinante na concepção de uma autêntica música gaúcha: a letra, o ritmo e os arranjos. O primeiro pilar é a letra. Penso que ela deve conter vocabulário regional, contemplando inclusive as particularidades e variáveis de cada região do Rio Grande do Sul. Quanto ao ritmo, temos uma influência de vários povos, como argentinos, europeus, afro também, que gerou o bugio, a milonga, o chamamé, chamarra, vanera, vanerão, xote, valsa e outros… E o terceiro ponto também muito importante são os arranjos, que são muito particulares e representativos. Eu sou a favor da inovação na música gaúcha, especialmente na área técnica, para garantir maior qualidade sonora compatível, inclusive, com os tempos atuais. Inovação sem perder a essência, claro.

Leonel Gomes – A música só será autêntica se o que a constrói é autêntico, independente do ritmo, do tipo de instrumento e melodia.

Analise Severo
Quando falamos de música gaúcha, temos que considerar que o RS é formado de povos diferentes que nos influenciam diretamente. O gaúcho é cruzamento eventual de índios, negros, espanhóis, portugueses. Devido a essa miscigenação, toda a nossa música, inevitavelmente, bebe da inspiração de variados ritmos e levadas, como samba, rock, MPB e latino americano. Meu trabalho atual destaca essa mistura, sem deixar de lado o comprometimento social que escolhi para o projeto “Bem Gaúcha”. Todas as manifestações regionais são autênticas, cada qual com sua intenção, seja com aspectos mais tradicionais ou contemporâneos. A música gaúcha nos proporciona esse leque de possibilidades, de podermos escolher, desde a gaita a uma guitarra semiacústica. Basta pesquisar esta manifestação, por exemplo, nos primórdios dos nossos festivais, presentes até hoje no cancioneiro gaúcho. Ser gaúcho é um estado de espírito, cabe ao artista manifestá-lo, cada qual a seu jeito. Acredito na música universal sem deixar de ser regional. Viva a música gaúcha e brasileira! De Pedro Raimundo a Vitor Ramil, de Antônio Villeroy à Berenice Azambuja.

Por Sandra Veroneze

Matéria integrante do Eco da Tradição 2019