Os maiores erros na gestão de entidades tradicionalistas

Empírico ou planejado? Como deve ser o processo de gestão de uma entidade tradicionalista? O empresário Guilherme Milani Lorscheider, autor do livro CTG SA – Liderança e Comunicação para Alcançar o Sucesso, participou do Cfor Patronagem compartilhando seus conhecimentos e perguntamos para ele quais os maiores erros cometidos pela patronagem das entidades tradicionalistas atualmente. Confira:

Particularmente, gosto muito de falar sobre Gestão em Entidades Tradicionalistas. Tenho um conceito próprio de que os CTGs devem ser gerenciados como empresas, não na busca do lucro como atividade fim, mas sim na sua forma de organizar e planejar todas as suas atividades.
Gerir uma Entidade Tradicionalista nunca foi uma tarefa simples, principalmente pelo fato de que praticamente todos os participantes que estão em algum cargo de função o fazem de forma totalmente voluntária e muitas vezes assumem sem ter o conhecimento necessário para desempenhar tal função.
Muitas vezes, por estarem justamente de forma voluntária, alguns não aguentam a pressão que o cargo oferece e acabam por abandonar seu cargo, e, assim, alguém assume às pressas, dificultando ainda mais…
Porém, o oposto também é verdadeiro. Muitos CTGs conseguem planejar o seu ano, ter bons resultados, atingindo suas metas e crescendo cada vez mais. Mas como isso acontece? Acredito que é mais importante entendermos os principais erros das patronagens e suas gestões, para que fique claro o porquê uns dão certo e outros não.

Problema nº 1: Centralização
Acreditar que algo só vai realmente ficar bom se passar pelas suas mãos. Como assim? Fácil entender com um exemplo:
Um laçador do piquete sugere organizar um torneio de truco no CTG no dia 15/12. O patrão, que é muito centralizador, diz que nesta data não será possível, pois ele não estará presente, e nenhum evento pode ser realizado sem a sua presença, já que ele é o responsável por abrir e fechar a entidade, controlar o caixa etc…
Como resolver? Entender e aprender a importância de delegar tarefas para outros departamentos, dando autonomia para as pessoas.

Problema nº 2: Não ter um bom planejamento financeiro
Esse parece óbvio, mas tenho certeza de que mais de 90% das entidades não fazem um planejamento financeiro real, no papel, com objetivos claros e específicos. Quando em nossa vida pessoal, financeiramente não estamos bem, qualquer pequeno problema se transforma em algo gigante. No CTG é exatamente igual, criando desconfianças e discussões frequentes, afastando possíveis novos participantes e provocando a saída de pessoas do “tempo antigo”.
Como resolver? Comece pelo menos fazendo um planejamento básico de todos os custos que entidade irá ter no ano, separado por departamento, para, assim, entender qual o montante total de arrecadação que será necessário.
Exemplo da artística: quanto vou gastar com instrutor, música, coreografia, viagem, indumentária?
Exemplo do cultural: quanto vou gastar com material de escritório, livros, viagens, palestrantes?
E assim, vá fazendo com cada departamento.

Problema nº 3: Não ter boas lideranças e boa comunicação
O fato é que não levamos a sério a importância da boa comunicação dentro de um CTG. Temos a ideia de que o ambiente é “tradicional” e de que “sempre foi assim” e não fazemos nada para mudar a forma com que nos comunicamos. O problema principal é que as gerações, sim, estão mudando e sua forma de ter contato com as outras pessoas também.
Estamos conectados o tempo todo e a tecnologia precisa nos beneficiar dentro das entidades. Não existe mais desculpa por ter “esquecido” de convidar um peão ou prenda do cultural para um evento importante, onde o mesmo deveria fazer a abertura, visto que temos ferramentas na palma da nossa mão. Não podemos achar também que pelas redes sociais podemos falar tudo e de qualquer jeito para as outras pessoas, como se essa “distância” não fosse atingir ou magoar o receptor da mensagem.
O que quero dizer com isso tudo? Que precisamos ter pessoas preparadas, que engajem e motivem os participantes de um CTG, de modo que todos que lá estão se sintam acolhidos pelo Movimento. E esse acolhimento, muitas vezes, é simplesmente por sabermos ter uma comunicação clara, direta, sem rodeios.
Fizemos uma pesquisa em 2018 com 400 respondentes de CTGs de todo o Brasil, identificando que 79,8% das pessoas estão descontentes com a comunicação da sua patronagem. Esse número é assustador e comprova que não estamos sabendo acompanhar a evolução e o modo com que cada geração quer ser tratada.
No nosso livro “CTG S.A. Liderança e Comunicação para Alcançar o Sucesso”, falamos sobre algumas ferramentas básicas que todos gestores precisam, no mínimo, conhecer, para conseguir aos poucos iniciar a sua aplicação, principalmente para dar feedbacks eficientes aos seus liderados e assim evitar que um pequeno problema possa se transformar no racha de todo um grupo ou até mesmo da entidade. O feedback serve tanto para ajudar a melhorar algo que está ruim, quanto para fortalecer pontos fortes de um integrante.

Para concluir…
Se fôssemos listar outra série de conhecimentos importantes que toda patronagem deveria ter, eu citaria as seguintes: ser líder e não chefe; como auxiliar na motivação dos seus liderados; como ter conversas difíceis com pessoas que se tem pouca afinidade; entender a importância do humor dos líderes; ter empatia, sabendo se colocar no lugar do outro; a importância dos limites dentro do CTG; como resolver problemas de forma criativa… e por aí vai!
Precisamos prestar mais atenção em nossas gestões, pois se cada CTG se enfraquecer um pouco que seja a cada ano que passa, não sabemos como nossa cultura gaúcha estará sendo propagada daqui 10, 20 ou 50 anos. Precisamos fazer a diferença, buscar conhecimento, ajudar o máximo possível de forma voluntária com o objetivo final de sempre, mas sempre mesmo, fortalecer cada vez mais os nossos CTGs, e assim, a cultura como um todo!

Por Guilherme Milani Lorscheider

Matéria integrante do Eco da Tradição 219