Quando fé e tradição se encontram para celebrar a cultura gaúcha

Jesus Cristo é chamado de Divino Tropeiro; Nossa Senhora, de Primeira Prenda do Céu; Deus é Pai Santo ou Pai Celeste e o Espírito Santo é Divino candieiro, Espírito Santo Vaqueano. Na Missa Crioula, a fé católica assume contornos regionais. O padre Aldo José da Silveira, que celebrou a missa dos 54 anos do MTG, fala nesta entrevista sobre as particularidades da celebração regionalizada.

 

O que é a Missa Crioula?
É a mesma missa que Jesus realizou na Santa Ceia, a missa que se reza nas igrejas católicas, enfim, a missa que rezamos todos os dias, mas adaptada com a nossa linguagem gaúcha e símbolos de nossa tradição gaúcha e é chamada de missa “crioula”. A Missa Crioula é uma missa católica, do rito latino, mas com cantos, preces, orações próprias em estilo campeiro. Jesus Cristo é chamado de Divino Tropeiro, Nossa Senhora, de Primeira Prenda do Céu, Deus é chamado de Pai Santo ou Pai Celeste e o Espírito Santo de Divino candieiro, Espírito Santo Vaqueano. Estes são alguns exemplos desse linguajar campeiro.

Desde quando é realizada?
Desde o Concílio Vaticano II (1965) tornou-se possível, com as alterações introduzidas na Igreja Católica como resultado do Concílio do Vaticano II (1965), que permitiu a tradução e adaptação da liturgia em latim para outras línguas nacionais e linguagens regionais. Em 1967, os padres gaúchos Paulo Aripe e Amadeu Gomes Canelas solicitaram autorização ao então Bispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, e ao Vaticano (cujo Papa era Paulo VI) para a celebração da Missa Crioula com cantos, preces e orações próprias. Nessa liturgia campeira, são utilizados símbolos do campo, da campanha, do uso costumeiro do gaúcho. A autorização foi apreciada, aprovada e concedida, na época, pelo episcopado gaúcho, para celebrá-la em ocasiões extraordinárias. Desde então, tornou-se comum entre os Centros de Tradições Gaúchas durante as comemorações da Semana Farroupilha.

Quais suas particularidades?
Entre os momentos mais emocionantes da Missa Crioula está o que relembra um dos mais marcantes episódios da história do Rio Grande do Sul: a guerra entre Maragatos e Chimangos. Como a missa busca trazer a paz e a compreensão entre todos, os homens e mulheres que participam da missa depõem suas armas, facas, facões, colocando-as junto da cruz e entrelaçam na cruz os lenços vermelho (Maragato) e branco (Chimango).

Todo e qualquer padre pode presidi-la?
Sim todos os padres podem, mas a maioria encontra muitas dificuldades, seja pelo linguajar e até para vestir uma pilcha. Não faz parte da cultura da maioria.

Qual a importância de termos uma missa com características gaúchas, em termos de espiritualidade e religiosidade?
Vem ao encontro do povo que cultiva a tradição, vem ajudar o povo, peões e prendas a rezar melhor. A minha oração da manhã sempre a faço com a cuia na mão, tomando um amargo e me ajuda a rezar melhor. Tempo maravilhoso é a Semana Farroupilha, quando vivo intensamente esse sentimento tradicionalista, onde além de ser “rio-grandense-do-sul”, sou gaúcho porque cultivo a tradição. Campereando por esse Rio Grande afora, pelo Brasil e outros países, já pude beber mais um pouco dessa cultura extraordinária. Agora posso falar mais e melhor do que vem acontecendo no tradicionalismo gaúcho e como a Pastoral está presente no campo, em nossos Piquetes, invernadas artísticas e CTGS, realmente posso dizer: Deus está no meio da gauchada.

Existem outros exemplos de missas com particularidades regionais no Brasil?
Eu conheço e já presidi missa em estilo afro-brasileiro. Mas tem outras: missa dos quilombos, em latim, alemão, italiano, polonês, com suas simbologias.

Como o senhor vê fé e tradição gaúcha juntas?
Posso dizer que acontece uma Pastoral Cristã muito forte na Semana farroupilha e no tradicionalismo gaúcho. Sentindo isso o padre Paulo Aripe fez a inculturação da missa para o homem e a mulher do campo, a fim de que pudessem rezar melhor, do seu jeito. E hoje é um desejo especial entre os gaúchos e gaúchas ter a reza da Missa Crioula. Mas os nossos gaúchos e gaúchas rezam e muito nas cavalgadas, nos acampamentos, no campo e no seu rancho. Por isso a missa crioula não deve ser rezada dentro de nossas igrejas, mas sim nos galpões, ou no campo, pois é ali que encontramos o estilo próprio do gaúcho(a), do nosso jeito dentro da espiritualidade do Pai Santo, do Divino Tropeiro Jesus e do Espírito Santo Vaqueano. A simbologia própria ajuda demais a rezar do jeito do ser humano.

Para o senhor, o que representa rezar essas missas?
Quando rezo uma missa crioula me sinto muito bem, em minha casa, dentro do meu rancho, “sou mais eu mesmo”. Revivo a minha infância, quando rezava em cima de uma árvore, em cima do cavalo, da mula, da carroça, atrás de um arado, mas especialmente tomando o chimarrão junto de minha família e amigos. Consigo rezar e ajudar os tradicionalistas a viver melhor a sua fé. É um tempo maravilhoso a Semana Farroupilha, vivo intensamente esse sentimento tradicionalista, onde além de ser “rio-grandense-do-sul”, sou gaúcho porque cultivo a tradição. Campereando por esse Rio Grande afora, pelo Brasil e outros países, onde pude beber mais um pouco dessa cultura extraordinária.

 

Entrevista para Sandra Veroneze

Matéria integrante do Eco da Tradição 2019