Reduzir o ritmo e aprender com as adversidades

 

Luíse Morais é Diretora do Departamento de Concursos Culturais para Peões e Prendas. Nesta entrevista, ela fala sobre os desafios da gestão em ano de pandemia e os aprendizados, destacando a importância e papel dos diretores culturais das Regiões Tradicionalistas e entidades para que, mesmo em meio à pandemia, fosse mantido um ritmo saudável e progressivo de atividades.

 

Quais as atividades/responsabilidades do departamento?
O departamento é crucial e um braço importantíssimo da vice-presidência de Cultura. Dentro do rol de atividades, é responsável por planejar, organizar e realizar a Ciranda Cultural de Prendas e Entrevero Cultural de Peões estaduais. Também os documentos, como diretrizes e normativas, que ditam o desenvolvimento de projetos e outras tarefas que fazem parte do escopo para a participar dos eventos em nível regional e estadual. Outra importante obrigação do departamento é a elaboração das provas escritas, uma responsabilidade de grande peso, uma vez que serve de base ao desenvolvimento intelectual das crianças e jovens, através da inserção de uma bibliografia e conteúdo programático. A alçada do departamento permite elaborar, passando pela aprovação do Conselho Diretor, listas de avaliadores sugeridas pelas coordenadorias e que comporão as equipes de avaliação. Estas equipes, inclusive, estão condicionadas a participar de cursos para alinhar trabalhos antes e durante esses eventos.

Qual a filosofia de trabalho 2020?
“HUMANIZAR”. Bem desta forma, com letras maiúsculas. Não só o departamento de concursos, mas os demais que estão sob responsabilidade da Vice-presidência de Cultura, levantaram a bandeira de que somos todos humanos, suscetíveis a erros, e que cada indivíduo tem sua própria rotina, com seus compromissos pessoais, profissionais, e que estar envolvido no mundo dos concursos de prendas e peões não pode representar um fardo, nem para a prenda ou o peão, nem para pais ou para diretores e diretoras culturais. As cirandas e entreveros devem ser encarados como uma oportunidade de formar cidadãos melhores para a sociedade e melhores para si mesmos. Frente à pressão que muitas prendas e peões sofrem ao optarem por ir aos palcos, este ano pontuamos que o caminho deve ser leve, mas ao mesmo tempo com muita responsabilidade. Em muitas manifestações foi enfatizado que é necessário ensinar ao jovem que o tradicionalismo tem muito a acrescentar na construção de caráter e no desenvolvimento de habilidades que a sociedade irá cobrar mais cedo ou mais tarde.

Como é composta a equipe de trabalho?
A equipe é muito dinâmica. Felizmente, sempre que precisamos de ajuda para executar determinada tarefa e tivemos que recorrer, não só aos demais departamentos, tivemos respostas positivas e colaborativas. Mas eu diria que nossa equipe é formada, principalmente, pelas diretoras e diretores culturais das 30 regiões tradicionalistas, e aquelas (es) que conduzem os departamentos no seio das entidades. Essas são as verdadeiras bases do nosso trabalho. Foi através destas pessoas, que dedicam seu tempo à liderança e trabalham nos “bastidores”, que pudemos vencer desafios e nos entender em 2020, em um panorama completamente atípico.

Neste ano tivemos / estamos tendo a pandemia. O que foi suspenso em função da covid?
Foi preciso ter nervos de aço para acreditar que teríamos que adiar sonhos. Agindo pela razão Entreveros regionais e estadual, bem como a Ciranda regional e a Ciranda de Ouro, a 50ª Ciranda Cultural de Prendas ficaram para 2021, e por consequência cursos e demais eventos e projetos que movimentavam o Estado. A grande preocupação foi o psicológico de prendas e peões e, a partir disso, muitas conversas se desenrolaram ao longo dos meses para garantir o mínimo de impacto que essas mudanças resultariam. Novamente, diretoras (es) culturais foram cruciais. Junto destes, foram pensadas e aplicadas soluções para não prejudicar a preparação dos envolvidos. Tivemos inúmeros encontros virtuais em que era possível ouvir todas as opiniões e construir juntos o melhor para o momento. Neste exato momento, está sendo desenvolvida uma nota de instrução que irá contemplar as mudanças, tratativas e adaptações do período pandêmico. Este documento, previsto para ser lançado até o fim do ano, respaldará o trabalho do departamento para 2021 e trará tranquilidade aos nossos participantes, que estarão assegurados de seus direitos.

Por outro lado, o que foi criado em função da covid?
Em um primeiro momento, foi desenvolvida uma página no Facebook onde postávamos atividades semanais, algumas “lives” esclarecedoras também foram ao ar. Percebemos, então, que as regiões queriam também sua autonomia para realizar campanhas, atividades e projetos e estavam ficando saturadas e sobrecarregadas. Foi hora de então buscar a simplificação. Projetos mais maleáveis foram sendo implantados e isso contribuiu para uma esfera de maior confiança entre os envolvidos com Cirandas e Entreveros. Por vezes foi pedido que confiássemos uns nos outros para o trabalho não estagnar e prendas e peões não desanimarem.

Quais as lições da pandemia para o departamento especificamente?
Evoluímos 10 anos em 1. Tivemos que nos reinventar e voltar a olhar para nossos companheiros tradicionalistas, perceber que por trás de uma preparação para Cirandas e Entreveros existem seres humanos com expectativas e por vezes fragilizados emocionalmente. A pandemia aflorou essa fragilidade e nos ensinou que não é preciso ter medo do desconhecido, do novo, quando se tem pessoas alinhadas e que querem o bem coletivo. Este ano vimos prendas criando as “contadoras da jornada”, vimos peões servindo marmita na beira da estrada, mães, pais, diretores e diretoras arrecadando material de limpeza e alimentos para as comunidades carentes. Enfim, a essência do tradicionalismo prevaleceu. Esta é a nossa grande lição e poderemos dizer que saímos fortalecidos e mais unidos.

Entrevista para Sandra Veroneze | Matéria integrante do Eco da Tradição 219