Sob a inspiração dos lanceiros negros e de Anita Garibaldi, Liliana Cardoso é patrona dos Festejos

Liliana Cardoso é natural de Porto Alegre, declamadora, radialista, apresentadora, mestre de cerimônias e ativista cultural. Vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura do RS, agora também ostenta o título de Patrona dos Festejos Farroupilhas do Rio Grande do Sul 2021. É a primeira mulher negra a ser homenageada como Patrona dos Festejos Farroupilhas do Rio Grande do Sul e nesta entrevista fala sobre o que significa a homenagem, faz reflexões sobre cultura e tradição e apresenta seus planos.

 

Quem é Liliana Cardoso?
É uma lanceira negra contemporânea.

O que significa para você ser a primeira mulher negra homenageada como patrona dos Festejos?
Significa um momento de muita luta, uma vitória para toda a classe cultural e comunidade negra. Uma vitória para todas as mulheres que buscam o reconhecimento do seu protagonismo em prol de uma causa, sendo ela cultural, educacional. Uma causa que não termina no ser patrona dos festejos, mas que se traduz em uma causa de vida, legado e história.

Na sua opinião, quais os grandes desafios hoje, tanto para a cultura como para o tradicionalismo gaúchos?
O desafio se expressa na necessidade de resiliência, coragem e fé, nesses momentos tão bicudos que estamos passando enquanto humanidade. Precisamos ter a coragem, através da cultura, de fazermos aquilo que nos pertence, que é adentrar nos ranchos e levar a musicalidade, a poesia, a cultura, a história, o cooperativismo, coletividade, e acima de tudo a sobrevivência, para que possamos voltar desta pandemia mais fortes do que entramos.

Sairemos melhores tradicionalistas desta pandemia?
Eu acredito que, se não melhores tradicionalistas, mais humanos, com um grande aprendizado. Neste momento tão triste, a pandemia trouxe uma oportunidade de reflexão sobre o fato de que sozinhos não somos nada. É uma doença que afeta a coletividade, mas cuja cura acontece na individualidade. Hoje mais de 470 mil pessoas choram a perda de seus familiares. Eu me encontro nesta estatística. Perdi a minha mãe para o coronavírus. O que me motiva nesta luta é conseguir fazer pelo menos um pouco da diferença na vida de cada uma das pessoas que precisam de uma palavra amiga, que precisam de ajuda e que precisam de entendimento pra que possamos, sim, nos unirmos na luta incansável contra este vírus.

A literatura sempre foi a ‘prima pobre’ da cultura gaúcha. Você acredita que a partir deste ano, com esta homenagem, a poesia e a declamação poderão receber maior destaque?
Com certeza. A literatura sempre ocupou um espaço pequeno dentro de todo esse celeiro da diversidade cultural. Percebo que através da poesia e declamação podemos levar uma mensagem sobre o que nos é mais sagrado, ou seja, a educação e a cultura. A declamação sempre foi uma importante manifestação literária. Por meio de versos opinamos, refletimos, fazemos uma provocação sadia. A declamação nos toca a pensar sobre quem somos, para onde vamos, o que deixamos.

Como você vê hoje a cultura e o tradicionalismo gaúchos no Rio Grande do Sul, pela perspectiva das pautas urgentes, como a diversidade?
Acho que o movimento tradicionalista gaúcho não é uma bolha fora da sociedade. Ele é a sociedade que traz a diversidade cultural em todos seus aspectos: étnico, religioso, educacional. O tradicionalismo tem o poder de atingir essa camada da sociedade e levar o entendimento como identidade do gaúcho, invocando seu pertencimento naquela diversidade cultural histórica que nos foi deixada e que por ora está esquecida, mas que nós, os contemporâneos de um tempo novo, iremos invocar, para modificar a sociedade para o bem, através dessas pautas.

Que marcas você pretende deixar como patrona dos festejos?
Gostaria que essa homenagem fosse um espaço de diálogo e de luta. Como mulher, tradicionalista e negra, busco inspiração nos Lanceiros Negros e em Anita Garibaldi. São dois ícones da nossa história em torno dos quais refletimos sobre o protagonismo feminino, sobre o Rio Grande que foi construído também pelas mãos dos negros, e que nos levam ao que idealizamos e buscamos, ou seja, uma sociedade com liberdade, igualdade e humanidade, como tão bem está expresso em nossa bandeira.

Que ações você pretende desenvolver enquanto patrona?
Além das oficinas e palestras pertinentes à homenagem, estou trabalhando em três iniciativas: uma página nas redes sociais, lives quinzenais e um livro. A página tem como objetivo abrir e sustentar um canal de comunicação permanente entre a patrona e todos os públicos envolvidos com os festejos e com a cultura gaúcha. Também pretende manter os registros da gestão. As lives, “Um mate com a patrona”, receberão convidados especiais para uma prosa descontraída e “de fundamento”, como diz o linguajar típico gaúcho, valorizando a reflexão e a conexão entre gaúchos e gaúchos de nascimento e de coração. O livro, por sua vez, já tem data para ser lançado. Será no dia 20 de setembro, Dia do Gaúcho, e terá como diferencial o elemento de construção compartilhada. “Há muito tempo nós, negros, demandamos o protagonismo na narrativa de nossas histórias. Nós queremos apresentar nossa voz, nossas versões, e desde já convido pesquisadores, estudiosos e pessoas que guardam a memória de nossas raízes para se juntar a esse processo, que terá como grande marca a construção compartilhada”.

Como, no futuro, você gostaria de ser lembrada?
Bueno. Gostaria de ser lembrada como uma mulher negra, lanceira contemporânea, que lutou e fez reflexões para as minorias. Uma mulher que lutou para jovens das periferias de todo o Rio Grande do Sul, muitas vezes sem acesso, que clamam pela cultura e educação. Quero ser lembrada como uma jovem que serviu de espelho pra muitos, mas acima de tudo que passou por essa terra não fazendo peso, mas sim participando ativamente de um processo transformador de igualdade, liberdade e humanidade. É assim que está na nossa bandeira. Temos que usar mais este legado que nos foi deixado. Não podemos ser humanos se não tivermos a liberdade. Não podemos ser igualitários se não carregamos a igualdade dentro de nós. E não podemos ser humanos se não olharmos pela humanidade que clama por amor, esperança e respeito.

Entrevista para Sandra Veroneze
Foto: Djalma Pacheco